HQ’s Libertárias – Parte 4

UPDATE - Antes de ler a matéria, só um adendo. Recebemos por e-mail o alerta de algumas pessoas no sentido de que charges não tem nada a ver com HQ’s. Entendemos as diferenças de uma para a outra, mas quando começamos a escrever as matérias queríamos falar só de quadrinhos, mas depois lembramos e reconhecemos a importância das charges, caricaturas, tiras e outras formas artísticas (por meio de imagens e desenhos) que também representam uma manifestação na luta pela liberdade de expressão ou crítica de comportamento social. Acabamos por decidir manter o nome HQ’s Libertárias apenas por uma condição de particularidade. Mas esquecemos de avisar sobre isso… Foi mal… (risos amarelos).
As caricaturas que abalaram o mundo
Por Talita Rocha*
Censura, polêmica, protestos e até mortes. Entenda por que essas caricaturas tiraram o sono de muitas autoridades no pelo mundo.
Até onde vão os limites da liberdade de expressão? Essa é a pergunta mais frequente quando se fala da publicação dessas caricaturas. Mesmo que não seja de hoje que elas façam parte da história política e social de um país, e estejam sempre revestidas de bom humor e até de um certo sarcasmo, as caricaturas ainda causam reação, só que nesses casos as reações chegaram a ser bombásticas.
As caricaturas de Maomé
Foram cerca de seis meses de ataques, centenas de protestos em frente às embaixadas da Dinamarca, França, Afeganistão, Líbano, Síria, Tailândia, Indonésia, Sudão, Índia e Faixa de Gaza, com saldo de cerca de 15 mortos e 6 feridos. Mas não se trata de uma guerra, e sim da onda de indignação que tomou conta dos muçulmanos com a publicação das 12 caricaturas que retratavam o profeta Maomé, no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em setembro de 2005. Tudo isso porque o Islamismo proíbe qualquer representação de Deus e do profeta, assim os muçulmanos consideraram a publicação um desrespeito à religião. Então até que as caricaturas fossem retiradas ou houvessem pedidos de desculpas, milhares de muçulmanos espalhados pelo mundo, passaram a atacar e bombardear as embaixadas e a ameaçar os jornais que publicaram as caricaturas. Essa reação levantou a nível mundial a questão sobre os limites da liberdade de expressão, que fez com que diversos países como Alemanha, Itália, Holanda e Espanha também publicassem as caricaturas.
Após prisões e até demissões de alguns responsáveis pelas publicações, o jornal Jyllands-Posten enviou à imprensa argelina por meio da embaixada da Dinamarca em Argel, uma carta pedindo desculpas aos muçulmanos por terem publicado a série de 12 charges do profeta Maomé. Só assim, mesmo com as caricaturas rolando soltas na rede, tudo voltou a santa paz como manda o Islã.
Xô Sarney (mais atual do que nunca)
Mais de R$ 500 mil, essa é a dívida acumulada pela jornalista Alcilene Cavalcante por ter publicado em seu blog uma caricatura com os dizeres “Xô Sarney” (não confundir com o atual Fora Sarney), feita pelo cartunista Ronaldo Rony no muro de sua casa em Macapá, no Amapá.
Acusada de querer atingir a imagem do senador José Sarney, até então candidato à reeleição no Amapá, Alcilene teve seu blog retirado do ar pela Justiça Eleitoral, e ficou sujeita a multa de R$ 2 mil por dia, caso não cumprisse a determinação.
O que o Senador não esperava é que essa medida traria mais repercussão para o caso, e que a caricatura que antes era vista apenas pelos macapaenses, que transitavam pelas ruas de Macapá, virassem adesivos e camisetas em nome da liberdade de expressão. Além disso, mais de 150 blogs se uniram ao “Movimento Xô Sarney” em repúdio ao ato de censura do ex-presidente, dando a caricatura destaque nacional e até internacional. Liberdade de expressão 1 X R$500 mil censura.
A natalidade de Astúrias
Era pra ser uma simples campanha para o aumento da natalidade anunciada pelo governo de José Luis Zapatero, na Espanha. Mas junto com a publicação da edição de junho da revista “El Jueves” vieram às polêmicas. Isso porque a capa trazia a caricatura do Príncipe Filipe, de Astúrias, e de sua esposa Letícia em pleno ato sexual, fazendo menção a campanha que oferecia 2.500 euros por filho a cada família.
O príncipe ficou furioso e entrou na justiça contra Guillermo Torres e Manel Fontdevilla, os autores da caricatura, que foram condenados por injúria e tiveram que pagar ao príncipe 3 mil euros cada um, e a revista que estava com a edição quase esgotada, devido a repercussão, foi retirada das bancas. E como forma de satirizar a situação, a mesma edição da revista foi relançada com os dizeres “Essa é a capa que gostaríamos de publicar”, onde o príncipe é retratado como uma abelha sobrevoando uma “flor”, Letícia. O que restou para os caricaturista foi fazer dois filhos cada um para cobrir o prejuízo.
O Holocausto de Latuff
“Cartuns satânicos”, assim foram chamadas as caricaturas do brasileiro Carlos Latuff, por militantes do Likud, partido conservador de direita ligado a Israel.
Publicadas no concurso de charges sobre o Holocausto, feito pelo diário iraniano Hamshahri, as caricaturas mostram israelenses bombardeando e ateando fogo em libaneses, e fazendo também uma comparação dos territórios palestinos com os campos de concentração nazistas. Visto como “genocida” e “anti-sionista”, Latuff, que é militante da causa palestina, sofreu diversas críticas e ameaças de morte da extrema direita israelense.
E o objetivo do jornal, que era testar os limites da liberdade de expressão e afrontar os jornais europeus que divulgaram as caricaturas de Maomé, certamente foi alcançado. Enquanto o cartunista teve que se contentar com o segundo lugar no concurso.

*Talita Rocha é formada em jornalismo.
Continua
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